(Texto adaptado do originalmente publicado no site da tradutora pública María del Pilar Sacristán Martín.)

“A tradução – quando é fiel, não é bonita e quando é bonita não é fiel.”

 George Bernard Shaw

“Estamos dando oportunidade tanto de aparecer pensamentos divergentes e o deste modo como coordenar essas divergências.”

Frase extraída de um artigo científico escrito por um professor doutor de renomada universidade. Experimente vertê-la para o idioma com que você trabalha.

As pessoas escrevem mal. Porque leem pouco. Porque seu pensamento é mais rápido do que a caneta ou do que os dedos no teclado. Porque hoje em dia privilegia-se a imagem, não o texto. Porque as redes sociais estão destruindo o idioma. Porque a professora de português era uma chata. Porque “vou ser engenheiro e não preciso perder tempo fazendo redação”. Seja qual for o motivo, o fato é que as pessoas escrevem mal.

A comunicação visual, a Internet ou o que quer que seja, está prejudicando o desenvolvimento linear das ideias, aquela coisa de princípio, meio e fim; sujeito, predicado, complementos; quem, que, como, onde e por quê. As pessoas não aplicam as regras básicas de claridade de expressão e acabam produzindo geringonças sem pés nem cabeça.

As pessoas escrevem mal, mas o tradutor deve traduzir bem, naturalmente. Porque as eventuais incoerências no texto traduzido, serão sempre atribuídas ao tradutor, nunca ao autor. Como traduzir (bem) um texto mal escrito? Você não pode encher de “sic” a tradução de um texto científico ou técnico que provavelmente será publicado em alguma revista especializada.

Ao contrário do que se costuma dizer, uma boa tradução não pode ser ipsis litteris. Uma boa tradução deve ser fiel à ideia do original, sem se ater necessariamente à sequência de palavras ou estruturas.

O domínio dos idiomas -estrangeiro e materno- não garante a boa tradução. É preciso desenvolver a compreensão. (Ato que não é nada fácil se considerarmos a variedade de conteúdos apresentados ao tradutor: desde energia nuclear, passando pela física quântica, até psicanálise, artes gráficas, contabilidade e informática. O tradutor é um profissional que não tem necessariamente especialidade nessas áreas.)

Por isto a tradução – principalmente a tradução livre – acaba sendo frequentemente uma interpretação, um exercício semântico. Uma interpretação baseada no bom senso, seguida de elaboração léxica baseada no conhecimento linguístico. Um processo conhecido como “a malícia do tradutor”: entender o que o autor “quis dizer” naquelas linhas mal escritas e transpor o conteúdo a outro idioma. Claro que esta ação representa um ato subjetivo que aumenta a possibilidade de erro (de “traição”) na tradução.

Eis aí a forma de determinar a qualidade do trabalho. Será bom tradutor aquele que conseguir interpretar e transcrever coerentemente os confusos conteúdos escritos pelos mais augustos autores. Por isto é importante que um tradutor seja, antes de mais nada, um arguto leitor e um habilidoso redator.